A erva-mate: a história de quem não morreu com a cuia na mão

Por Fábio Reimão de Mello - 22/11/2012

Em 1915 um comerciante riomafrense faleceu subitamente enquanto tomava chimarrão em uma roda de amigos, literalmente esse nosso conterrâneo “morreu com a cuia na mão”, uma frase que hoje é bem conhecida pelos apreciadores de chimarrão, usada para referir-se a quem se demora em apreciar a bebida.

Fora de situações inusitadas como a descrita, assim como das rodas de mate, a expressão “morrer com a cuia na mão” pode simplesmente significar “demora”, a perda de tempo em que poderia ter-se agido. Então, mais do que deixar companheiros à espera de chimarrão, “morrer com a cuia na mão” pode muito bem representar o não aproveitamento de uma oportunidade que está facilmente ao seu alcance. Nesse sentido, descartando é claro o infeliz acontecimento ocorrido com nosso conterrâneo, quando se olha para o passado com vistas à cultura da erva-mate em Mafra, vê-se que os mafrenses, à época, não morreram com a cuia na mão.

Muito além de sua importância no preparo do chimarrão, tão habitual e característico da cultura regional, fruto principalmente de nossas raízes tropeiras, a cultura da erva mate em Mafra, que hoje segundo dados do IBGE atinge cerca de 2.000 toneladas a um valor total de R$ 840 mil, já constituiu-se em principal produto agrícola do município e fator central de nossas atividades econômicas.

Para se dimensionar um pouco essa importância, lembremos que em 1912, durante as disputas políticas do Contestado, a polícia paranaense chegou a destruir uma ponte no São Lourenço para dificultar o escoamento da produção de erva-mate e, ainda que Mafra, quando de sua criação em 1917, possuía apenas 16 casas de comércio de produtos variados, enquanto existiam 20 fábricas de barricas de madeira, utilizadas no armazenamento do produto.

Foi sob esse cenário, no qual a erva-mate não só representava mais uma opção de cultura aos nossos agricultores como se mostrava como grande oportunidade para prosperar, que produtores riomafrenses não dormiram com a cuia na mão e, demonstrando uma boa visão de futuro buscaram trabalhar juntos par que dessa forma fossem mais competitivos.

Assim em 1935, 41 produtores dos municípios de Mafra, Papanduva e Itaiópolis reuniram-se formando o “Consórcio Profissional dos Produtores de Mate”, entidade cuja atuação levou a fundação da “Cooperativa de Erva Mate Mafra” em 12 de junho de 1937, organização que, a fim de fortalecer o setor, proporcionou a compra de um engenho para beneficiamento de erva.

Prova do sucesso e desenvolvimento ocasionado pela iniciativa daqueles mafrenses, entre eles Pedro Kuss (agricultor muito conhecido também por sua atuação política no município) foi a marca de 3.202.318 kg de erva-mate beneficiados em 1955 e o número de 2.118 associados à Cooperativa em 1967, sem dúvida ocasiões em que o produto figurava como uma das maiores fontes de renda e comércio da região.

Como todo produto, naturalmente a pujança da erva-mate foi aos poucos sendo superada por outras culturas, permanecendo hoje como uma, das diversas atividades econômicas locais, mas, apesar de sua menor representatividade atual, o exemplo da busca pela competitividade de um produto através da união (e não da rivalidade) de nossos munícipes, mostra bem que aquelas pessoas, diante da oportunidade que lhes surgiu, não foram meros espectadores do mercado, agiram, não se deixando “morrer com a cuia na mão”.

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