Entre carros e carroças: O trânsito mafrense na década de 1920

Por Fábio Reimão de Mello - 22/04/2013

Em dias em que somos obrigados a enfrentar congestionamentos no trânsito de Riomafra, onde estudos são realizados para melhorar o fluxo de veículos, onde obras se fazem necessárias, onde inúmeras sugestões e palpites surgem em cada esquina, onde conseguir estacionar o carro nas ruas centrais é cada vez mais sinal de sorte, a idéia de que tudo isso já foi melhor no passado, está presente na cabeça de motoristas e pedestres, pelo menos dos um pouco mais experientes, que conheceram a realidade de anos atrás.

Indo bem além disso lá pela década de 1920, nos primórdios do trânsito mafrense, quando a exemplo do que se fazia à época, o próprio o Município regulamentou seu trânsito e é possível verificar que, ao mesmo tempo que a velha idéia de que “antigamente as coisas eram mais simples e mais fáceis” é real, um contexto de quase 100 anos atrás também apresenta várias semelhanças como os dias em que vivemos.

Assim, em 1925, apesar da inexistência de sinais de trânsito, lombadas e faixas de pedestre, com certeza atravessar a rua no centro da cidade era bem mais fácil, tanto pelo menor número de veículos quanto pela velocidade dos mesmos, que eram baixíssimas se comparadas as atuais. Apesar da velocidade dos veículos automotores ser, em geral, regulada pelas circunstâncias do lugar e do momento, como por bom senso, havia uma limitação legal de velocidade dentro do perímetro urbano, fixada em incríveis 15 km/h. Até carroças tinham sua velocidade máxima estabelecida, não em km/h, mas curiosamente pela forma de deslocamento dos animais, não devendo assim,  quando utilizadas no transporte de pessoas, ter velocidade superior a de um cavalo a “trote largo”, ou quando transportando carga, ir mais rápido do que um cavalo a “passo largo”, ou ainda quando descarregadas, ultrapassar o ritmo de “trote”.

Nesse período, em que automóveis dividiam espaço no transito com as carroças, que aliás, eram maioria, a segurança e o cuidado com os animais seguiam normas que lembram muito o pensamento atual em relação ao uso de animais para qualquer tipo de trabalho, sendo proibido já em 1925, o emprego de cavalos feridos, doentes ou excessivamente magros, o carregamento de cargas com peso superior as possibilidades de tração dos animais e até a utilização, pelos veículos automotores, da lanterna de luz forte (o equivalente a nossa luz alta) quando no encontro com carroças.

Se hoje por nossas ruas muita gente ignora o uso dos ‘piscas’, alterando o traçado do veiculo sem qualquer sinalização, dando susto em muita gente, na década de 1920 os motoristas de carros também não usavam piscas, não devido a qualquer tipo imprudência, mas a real falta física deles. Mas, nem por isso deixavam de sinalizar suas conversões, condutores faziam muito uso da buzina, que servia para avisar que o veículo iria dobrar alguma esquina, atravessar um cruzamento ou mesmo para avisar que se aproximava de outro veiculo, de pessoas ou animais que estivessem a sua frente.

Se as diferenças em nosso trânsito são claras, podendo sugerir não só ruas mais tranqüilas como uma grande liberdade por parte dos motoristas na condução de veículos, sejam eles carros, caminhões ou carroças, também se percebe que em 2013 ou em 1925, algumas coisas continuam sendo iguais, como ser multado por dirigir sem carteira de habilitação, sem os documentos do veículo ou mesmo estar em atraso no pagamento de impostos.

Sempre vinculados ao pagamento de taxas à administração municipal, os veículos tinham que ser registrados e emplacados pela Superintendência (Prefeitura), tendo as placas ou “chapas”, como então chamadas, cores e numeração específicas ao emprego do veículo. Além disso, todo condutor de automóvel ou carroça empregada para frete, devia possuir carteira de habilitação, documento de acesso somente aos maiores de 18 anos e cuja obtenção, a exemplo de hoje, era cercado de burocracia, sendo exigidos, além do tradicional exame médico e prova prática, uma série de documentos, o recolhimento de valores para “encaminhamentos” e até certidões e atestados que comprovassem o bom comportamento social do candidato a motorista, sua honestidade, e que o mesmo “não se dava ao vício da embriaguez”.

Assim temos uma idéia de como as coisas eram diferentes em nosso trânsito na segunda década do século passado, diferente, mas nem tanto assim.

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