Profissões do passado: a árdua tarefa de serradores e carroceiros

Por Fábio Reimão de Mello - 06/02/2013

É difícil, talvez impossível, encontrar alguém que não reclame, ou pelo menos não tenha reclamado algum dia de seus afazeres profissionais, classificando-os como cansativos, desgastantes, estressantes, insalubres, perigosos, pouco reconhecidos, mal remunerados e outras expressões do gênero, que de alguma forma exprimem aspectos negativos do trabalho.

Tenham essas expressões fundo real, ou mesmo sejam superdimensionadas, a verdade é que a exemplo de outras coisas da vida, temos sempre uma tendência maior à reclamar do que elogiar, principalmente quando comparamos o nosso, com o trabalho dos outros, sempre visto como mais fácil, tranqüilo e bem remunerado pois, “a grama do vizinho é sempre mais verde”, ou seja, a melhor profissão ou atividade profissional pertence sempre aos outros, cabendo à nossa as tradicionais reclamações.

Mas, se tudo é questão de comparativo, é de duvidar que alguém sinta inveja de algumas ocupações comuns no passado que, às vezes, por mais conhecida que possa parecer, nunca atentamos devidamente para algumas de suas particularidades.

Como parte de uma região marcada historicamente pela exploração de madeira, Riomafra possui várias empresas que dedicam-se a dar forma à madeira bruta, transformando troncos de árvores em tábuas, ripas e outras formas de emprego da madeira maciça para comercialização, e ainda hoje, apesar do emprego de máquinas na maior parte desse processo, ser serrador é ainda considerado uma “dura” função. Mas, nada comparado ao passado, quando essa operação era feita de forma manual.

O tronco da árvore era suspenso e colocado sobre um alto cavalete, no qual um serrador se posicionava sobre o tronco, enquanto um segundo serrador ficava no chão abaixo dele, e juntos abriam a madeira com um grande serrote, movimentado por ambos em posição vertical, puxado para cima e para baixo em um forte e contínuo movimento.

Além da força (pois abrir um pinheiro ou uma imbuia não é tarefa nada fácil), do movimento repetitivo, do perigo em sofrer cortes e, é claro, do calor, pois isso tudo era feito ao ar livre, sob o sol, o serrador de cima não podia se desequilibrar, mesmo com o cansaço, pois uma queda podia lhe render um braço e algumas costelas quebradas e, o serrador de baixo tomava um verdadeiro banho de serragem. Vale lembrar que nessa época, sequer sonhava-se em disponibilizar aos funcionários materiais conhecidos atualmente como equipamentos de proteção individual – EPI’s.

Nessa linha de raciocínio, é importante também destacar a atuação daquele profissional que retirava o tronco do lugar onde a árvore havia sido derrubada e o conduzia até onde seria cortado, o carroceiro.

Com um veículo de madeira, movido à tração animal (geralmente cavalos), lento, barulhento e que sacolejava muito, o carroceiro auxiliava no carregamento da tora, que geralmente muito pesada, era colocada sobre a  carroça rolando-se o tronco sobre hastes também de madeira, com o auxílio de alavancas, numa ação que era um verdadeiro “atentado” contra a segurança, pois a quebra de alguma haste, alavanca ou mesmo um fraquejo ao rolar o tronco para cima da carroça, ocasionava o esmagamento de alguém.

Carroceiros
Carroceiros

Além de estar sujeito às intempéries durante trajetos longos, como sol forte, chuva e frio, o carroceiro enfrentava, além de estradas recém abertas ou mal conservadas, imprevistos “mecânicos”, como a dilatação do aro metálico que envolvia as rodas da carroça, causado pelo atrito das mesmas com o chão, que aquecia os aros e fazia-os soltarem da armação de madeira, levando a sua quebra e a necessidade de troca ou manutenção, o que muitas vezes era impossível ser realizada pelo carroceiro naquele momento.

E para quem, quando fala-se de carroças, logo imagina o sofrimento do animal, sua necessidade de descanso, água e comida, e visualiza-o carregando cargas pesadas ladeira acima, pense que o carroceiro não via com bons olhos as descidas, principalmente as mais acentuadas. Tudo por causa dos freios, um sistema totalmente precário, baseado na força aplicada pelo carroceiro em alavancas que agiam diretamente sobre as rodas, cuja quebra tinha conseqüências gravíssimas, tanto para os cavalos quanto para o condutor.

Assim, com certeza, serradores e carroceiros também reclamavam de seus afazeres, mas da mesma forma como tudo é questão de comparação, também acreditavam que existiam profissões muito mais desgastantes que as suas. Coisa da vida.

Serradores
Serradores
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