Pai e filho exibem a tatarca recém colhida

Elemento base e fundamental da culinária Ucraniana, a “Rétcka”, ou mais conhecida como “Tatarca”, é muito utilizada em pratos típicos no município e na região, que foi colonizada por imigrantes de origem européia, mais especificamente do Leste do Continente.

Pouco conhecida, o grão é utilizado na confecção de pratos saborosos como “Alusque” e outros cozidos. A planta foi trazida ao Brasil, calcula-se, por volta de 1895, com a chegada das primeiras famílias ao Sul do país. A tatarca não exige solo de boa qualidade e o ciclo de germinação e florada é continuo. A planta de fácil cultivo é semelhante a uma “erva – daninha”, mas pode e deve ser apreciada na gastronomia.

O grão é pequenino e escuro com formato triangular, aparentando com o ruibarbo e as azedas. Na culinária Ucraniana, por exemplo, a “Rétcka” é elementar. Fazendo parte da União das Republicas Socialistas Soviéticas, a Ucrânia, somente em 1991 tornou-se independente. No entanto, mais de 20 mil pessoas morreram de fome por um boicote de alimentos do governo soviético (genocídio). É exatamente nesse momento, que surgiu o “fundee”, que não tem nada de Francês, mas sim de Ucraniano.

Tatarca na florada

Na época da crise alimentícia, a Ucrânia aproveitou as migalhas de pão com incremento de molhos que, coincidentemente, hoje se transformou no “fundee”. A tatarca faz parte dessa história, e não requer muita atenção para produzir e matar a fome de um povo rico em cultura, com tradições preservadas.

O grão passou a fazer parte de objeto de pesquisa por acadêmico do Rio de Janeiro, segundo a Epagri de Itaiópolis. O objetivo é mostrar à culinária como elemento da cultura, hoje enraizada no Brasil, principalmente nos estados do Sul.

No entanto, em Itaiópolis, a tatarca é produzida em grande quantidade na propriedade de Davi Bossi, 49 anos. O sítio da família está localizado em Distrito de Itaió, a 20 quilômetros do centro da cidade, no KM 12, da rodovia SC 477.

Davi é natural de Santa Terezinha, da comunidade de Bley Pombas, mas em junho de 1997 junto com sua família vieram cultivar as terras do Distrito. Descendente de Ucranianos, Davi cultiva a tatarca e seu sitio é uma referência.

Segundo o agricultor, a tatarca é plantada em setembro e o limite de semeadura se estende até fevereiro. “Para o próximo ano pretendo fazer duas safras de “rétcka””, disse o agricultor. O ciclo desde a semeadura, germinação até a maturação varia de 100 a 120 dias.

O plantio é feito manual. A semente é lançada sobre a terra fofa, pelas mãos dos agricultores. “É uma planta que aproveita qualquer terra e resíduo de adubação do fumo e do feijão”, disse o filho de Davi, Lucas Bossi, de 25 anos.

A família cultiva em média três hectares por safra. Hoje a colheita é mecanizada, mas até então os pequenos agricultores utilizavam “gancho”. A intenção de Davi é instalar apiários na lavoura, pois o néctar retirado das flores da tatarca por abelhas se transforma em mel de qualidade, de cor escura que pode ser utilizado para fins medicinais.

A tatarca rende em média de 1,5 a 1,8 toneladas por hectare, quando colhida. O clima temperado é ideal para a planta. “É impressionante como a tatarca floresce”, disse Davi.

O grão, depois de colhida precisa ser descascado. Davi utiliza uma engenhoca rudimentar denominada “jorna”, que é uma pedra mantendo contato com uma borracha, que faz atrito e lentamente descasca os grãos triangulares. “O moinho para descascar é totalmente artesanal, construído com madeiras”, explica Davi.

“Depois de terminar a safra de tabaco vamos construir um descascador e pretendemos envazar a tatarca, para melhor comercializar”, disse o agricultor.

O investimento para a construção do descascador será de aproximadamente R$ 20 mil. A intenção é construí-lo as margens da rodovia SC 477 e abrir para visitação do público. Talvez a engenhoca seja inserida no roteiro turístico do município.

A comercialização da produção é feita de forma fracionada em supermercados do município. Pessoas da região, de origem ucraniana, também compram. “Chegam a encomendar até 40 quilos”, disse Maria Dernys Bossi, esposa. O produto é vendido a R$ 5,00 o quilograma. A tatarca é conhecida também como trigo mourisco, trigo sarraceno. O grão é rico em proteínas, vitaminas, minerais, fibras e substâncias antioxidantes.

Davi Bossi, além da tatarca, produz melancia, tabaco, milho, feijão e soja. “As lavouras sempre vão bem, graças a Deus”, disse. O agricultor, de família humilde e exemplar, acredita no campo. Nos finais de semana, seus filhos incentivam e apostam no esporte. Ao lado da casa, dois campos de futebol foram construídos. “Fazemos torneios esportivos e olimpíada para a juventude ucraniana da região”, falou o filho Lucas. Maiores informações: 047 3134 2011.