
A Revista Paraná Cooperativo, do Sistema de Organização das Cooperativas do Paraná, a OCEPAR, destacou em sua edição de número 93 uma entrevista com a agricultora quitandinhense Luciane Dranka. Natural do município, nesta publicação ela contou um pouco sobre a sua trajetória de vida e também de como se tornou uma liderança feminina do cooperativismo.
Cooperada do Sicredi Planalto das Araucárias PR/SC e da Bom Jesus, na entrevista Luciane também destacou as superações de sua vida, como por exemplo, os momentos difíceis após a morte do seu marido que tinha apenas 35 anos.
Com texto e fotos de Marli Vieira e Samuel Z. Milléo Filho, a revista pode ser acessada na íntegra pelo endereço eletrônico http://www.paranacooperativo.coop.br/ppc/ .
Confira alguns trechos da entrevista de quatro páginas com a agricultora quitandinhense:
Orgulho de ser cooperativista
Meu marido sempre quis que eu estivesse presente na cooperativa. Ele dizia “vamos junto que você escuta uma coisa e eu escuto outra e aí tudo dá certo”
Depois de uma vida inteira de muito trabalho, a família de Luciane Dranka havia chegado em momento da vida em que era só manter o que vinha sendo feito para que as coisas continuassem a prosperar. “Conseguimos terminar a construção da nossa casa, compramos terra, maquinários novos, tínhamos um casal de filhos, já estávamos bem estabilizados, enfim, era só cuidar do que tínhamos”, conta Luciane. Mas um fato mudou a trajetória da família. Com apenas 35 anos, o marido de Luciane, Sérgio Dranka, teve um infarto fulminante.
Com a responsabilidade de cuidar sozinha dos filhos, Luciane arregaçou as mangas e assumiu o comando da propriedade e dos negócios.
Devido ao fato de ser mulher, viúva e toda superação que passou para se desenvolver como produtora e cooperada do Sicredi e da Bom Jesus, em Quitandinha (PR), é que escolhemos Luciane Dranka para ser a entrevistada do mês, onde conta um pouco da sua bonita história de vida. Do apoio que recebeu do sistema cooperativista e como se tornou uma liderança feminina no movimento.
Paraná Cooperativo – Conte um pouco sobre sua vida.
Luciane Dranka – Nasci em Cachoeira, área rural de Quitandinha, no sul do Paraná. Mudei para a cidade em 1981. Morar na cidade é só uma maneira de dizer, porque a nossa lavoura ficava a 12 quilômetros do centro da cidade. Estudei até os 13 anos. Meu maior sonho era estudar, mas não deu. Então, tive que dar o melhor de mim e procurar ser feliz trabalhando na roça. Casei aos 22 anos e continuei trabalhando na lavoura, desta vez com o meu marido.
Paraná Cooperativo – Como foi que aprendeu sobre o funcionamento da cooperativa e dos negócios?
Luciane Dranka – Meu marido sempre me levou junto em tudo. Tinha reunião na cooperativa e eu ia junto. Eram cinquenta homens e a Luciane junto. Mas meu marido sempre quis que eu estivesse presente. Ele dizia “vamos junto que você escuta uma coisa e eu escuto outra e aí tudo dá certo”. Às vezes eu estava dentro de casa e ele me chamava para ver uma coisa ou outra. Eu perguntava por que e ele apenas respondia que eu precisava aprender.
Por 12 anos acompanhei meu marido em tudo. Estávamos com a vida tranquila. Tínhamos dois filhos: a Jaqueline, com 10 anos, e o Tiaguinho, de dois. Conseguimos comprar um pedaço de terra, maquinário melhor, já estávamos bem estabilizados. Era só cuidar.
Paraná Cooperativo – O que aconteceu que mudou tão radicalmente o rumo da sua vida?
Luciane Dranka – No final de 2008, saímos para malhar feijão. Trabalhamos o dia inteiro. Quando foi de tarde, por volta das 17h45, já terminando o trabalho, alguém gritou que o Sérgio estava passando mal. Larguei tudo e corri. O que aconteceu é que ele subiu no trator, deu a partida e, neste momento, teve um infarto fulminante. Na hora pensamos que pudesse ser um mal súbito, um desmaio, qualquer coisa. Mas infelizmente não era. Ele tinha apenas 35 anos. Nunca tinha sentido nada, nenhum sintoma. Não bebia, não fumava. A vida dele era levantar cedo e trabalhar. E aquele dia apagou.
Paraná Cooperativo – Em certos momentos, chegaram a duvidar que daria conta da situação, mesmo com um irmão ao seu lado, lhe dando apoio?
Luciane Dranka – Sim. Hoje, meu irmão tem 24 anos, mas na época em que tudo aconteceu ele tinha apenas 19 anos. Apesar de ter crescido muito próximo da gente, convivendo com os maquinários e com a vida da roça, ele vivia na cidade, com a minha mãe. Sou muito grata a ele por deixar a casa dos pais e abrir mão do sonho de estudar, de fazer uma faculdade, para cuidar da irmã mais velha e dos sobrinhos. Não é qualquer jovem que faz isso. Tem que ter uma base familiar muito forte. Mesmo assim, houve quem duvidasse que a gente conseguiria. Uma viúva e um jovem da cidade? Como poderia dar certo? Mas deu.
E houve discriminação também. Percebi no olhar das pessoas, do povo. Para uma mulher casada, a turma olha de um jeito, e para a viúva de outro… E tem muita discriminação por aqui na hora de fechar um negócio. Quando meu marido era vivo, eu já negociava, sabia como fazer. Eu ligava, brigava por preço, fechava a compra. Mas quando fiquei viúva, a história mudou. Tive que provar minha competência. Nesta parte, foi bem difícil.
Paraná Cooperativo – E o que a cooperativa representou para a senhora nesse momento tão difícil da sua vida?
Luciane Dranka – A cooperativa foi bem amiga. Tínhamos dívidas para quitar e tudo foi acertado da melhor forma. Fizeram de uma forma bem amigável mesmo. Foram companheiros e transparentes.
Paraná Cooperativo – Hoje a senhora é uma liderança cooperativista, tem participado, inclusive, de diversos eventos pelo Brasil, contando sua história, difundindo os princípios cooperativistas e servindo de inspiração para que mais mulheres participem desse movimento. O que o cooperativismo significa para a senhora, para a sua vida?
Luciane Dranka – Desde o começo, em que meu marido era cooperado, eu já participava. Ele fazia questão disso. Surgiam os convites e eu já estava lá. E depois que ele se foi, continuei participando. É encontro de mulheres, cursos, o Encontro Estadual de Cooperativistas, enfim, tudo o que é programado e que recebo o convite, procuro participar. No ano passado, recebi o convite para ser conselheira fiscal da Bom Jesus e também aceitei.
Acho importante todo este envolvimento porque a gente aprende, abre horizontes, conhece pessoas. Um exemplo foi o Elicoop Feminino do ano passado, em Mandaguari, onde pude ouvir tantas histórias de mulheres. A gente pensa que a pior é a nossa, mas no fim vemos outras mulheres ainda mais sofredoras e que estão batalhando. Isto dá estímulo para seguir em frente.
Paraná Cooperativo – Como a senhora avalia a importância do cooperativismo na sua vida?
Luciane Dranka – O cooperativismo tem ganhado vários campos. Até na mídia, quando é que no passado era falado em cooperativa, em cooperativismo? Nos eventos, como o Encontro Estadual que acontece em dezembro, em Curitiba, a gente pode perceber o quanto este movimento está crescendo e o quanto está sendo prestigiado e respeitado. Então, quanto mais união, mais cooperação, mais a coisa vai melhorar, porque o individualismo não está com nada.
É importante citar também o cooperativismo de crédito. Além de cooperada, sou coordenadora de núcleo do Sicredi, em Quitandinha. Numa cooperativa de crédito, desde o atendimento é diferenciado. Lá eu não preciso chegar com um salto e uma bolsa bonita para ser bem atendida. Posso vir direto da roça e entrar na agência do jeito que estou que sou recebida como qualquer outro cliente. Diferente do que acontece num banco privado, onde eu mesma já fui barrada por causa dos meus trajes. Cheguei a ter que trocar um cheque na porta por causa da roupa que estava usando. No Sicredi não é assim. Lá eu sou dona. Lá sim eu posso vir da roça e entrar na agência sem me preocupar com roupa. A gente tenta retribuir do nosso jeito. No ano passado, estava colhendo batata salsa e depois passei na agência com um saco nas costas. Não pensei duas vezes e distribui para todos os funcionários. Este ano, eles já estão perguntando quando é a colheita.
Paraná cooperativo – Que conselho a senhora daria para uma mulher que está passando por dificuldades?
Luciane Dranka – Que siga em frente, que não baixe a cabeça, que saiba que uma pessoa se foi, mas há outras que dependem dela. E ela não pode parar. Procure ajuda de pessoas que estão prontas para ajudar, seja no ramo da agricultura, do crédito. Então, que essa mulher não se isole, não fique sozinha, que vá atrás, que não pare, não desista, não desanime, tenha fé porque, na verdade, nem a gente sabe a força que tem para continuar e superar. As mulheres já tem, por natureza, a posição de coitadinhas, mas não é assim. Não somos nem um pouco coitadinhas. Temos força, temos que arregaçar as mangas e ir em frente, ir à luta, dar estudo para os nossos filhos, colocá-los no bom caminho, levar para a igreja, ensinar a ter fé, a trabalhar.
Paraná Cooperativo -E quando a senhora se olha no espelho, o que vê?
Luciane Dranka – Vejo uma mulher lutadora, e tenho orgulho disso. Passo por dificuldades às vezes e ainda enfrento discriminação, mas eu não ligo. No ano passado, fomos para Goiás. Fomos em 11 homens e eu. Imagine o falatório na cidade. E daí? Fui, voltei, aprendi muita coisa. Vi como é o mundo fora do portão da minha casa, cresci como pessoa. E iria novamente porque, além de tudo isso, há muito respeito. Isto precisa ser divulgado: o respeito que as cooperativas têm com as pessoas, sejam homens ou mulheres. A gente é muito bem tratado e respeitado. Tenho orgulho em ser cooperativista. E isto falo de boca cheia, tenho muito orgulho de participar deste movimento.




Parabéns Luciane, mulher de garra, me lembrou minha mãe, mulher da roça e trabalhadora, alegre de bem com a vida. Sucesso e muita paz para você e sua família.