No ano de 2013 o jornal Gazeta de Riomafra já reportava este grave problema em Riomafra numa série de reportagens denominada: “Leis não cumpridas”, de lá para cá, quase nada mudou, ao contrário, com o crescimento populacional e de automóveis e motocicletas nas duas cidades o problema aumentou ainda mais. Nossas autoridades continuam alheias ao problema e descumprindo quase que integralmente as leis: federal, estadual e municipal que regem a matéria. Inclusive já reportamos por várias ocasiões a falta de acessibilidade em vários prédios públicos como a Prefeitura e Câmara de Vereadores de Mafra, sendo que até hoje também nada foi feito.

Celina Hirt sempre foi uma mulher ativa, mesmo após as limitações físicas que a vida lhe impôs por conta de uma leptospirose em 2007. Foram quinze anos trabalhando no setor de limpeza da maternidade de Mafra, participação de associações, comunidades da igreja e movimentos sociais. Porém, após a doença afetar sua coluna e consequentemente sua mobilidade, as companhias e amizades da época de trabalho sumiram.

Hoje com 72 anos e aposentada por invalidez, Celina conta que nunca quis ser dependente das pessoas, sempre quis sair sozinha de casa e, após a formação de um grupo de cadeirantes em 2009, a primeira conquista chegou: os ônibus adaptados para passageiros com cadeira de roda começaram a circular em Mafra. Em 2012 foi a Prefeitura pedir 100% de ônibus adaptados, pois eram apenas 60%, sendo que em muitos deles o elevador necessário para os cadeirantes não funcionava.  Apesar da linha Faxina – a qual utiliza e pela qual está sempre lutando por melhorias – ser adequada, sempre é necessário pedir a manutenção do elevador. “Eu peço para arrumarem e é sempre uma burocracia com endereço, linha que utilizo e documentos. É só levar na oficina e arrumar” – aponta.

Além dos afazeres domésticos, fisioterapia e hidroginástica, Celina também estuda biologia na Universidade do Contestado (UnC) e atualmente é a única aluna cadeirante do campus de Mafra. Questionada sobre a acessibilidade na faculdade e em Mafra, a estudante de 72 anos, relata com pesar que a falta de acesso aos cadeirantes é de maneira geral no município. “Desde órgãos públicos ao comércio. Parece que não querem que compre ou esteja no local. Somos consumidores e cidadãos normais.” – enfatiza.

Na faculdade em que estuda, um projeto de acessibilidade foi feito por acadêmicos de direito atendendo ao seu pedido. Segundo Celina, a faculdade adaptou a biblioteca e mesa para ela poder estudar, porém a estudante de biologia aponta erros na acessibilidade. “Não há livros em braile para os acadêmicos com deficiência visual e é direito deles, assim como nas farmácias é preciso ter genéricos nas prateleiras com descrição em braile, é lei.” – afirma. A aluna de biologia também reclama da forma como os editais são abertos para adquirir bolsa de estudos. “Usam termos errados como “inválido”. Para mim isso é quem está impossibilitado de tudo e em uma cama, pedem índice de carência. Acredito que os deficientes que provam a sua deficiência deveriam ganhar bolsa integral” – destaca.

Celina utiliza o transporte público para se locomover e estudar, porém para chegar à faculdade após a última parada do coletivo, precisa usar sua cadeira motorizada ao lado dos carros na rua, pois as calçadas são quebradas e não há como transitar com a cadeira. “Faltam rampas e são muitas são colocadas de maneira errada. Saio no asfalta porque também não souberam fazer a rampa de maneira adequada para a cadeira passar” – analisa.  A estudante nunca sofreu acidente trafegando pela rua porque os motoristas respeitam, mas já houve casos de imprudência. “Um carro da Prefeitura já trancou o trânsito e parou em cima da faixa quando eu iria passar” – conta.

No entanto, dentro da faculdade Celina recebe a ajuda dos alunos e funcionários que estão acostumados com a sua presença no campus.  “Meus colegas e professores são prestativos e sempre me ajudam. Não posso reclamar do tratamento que recebo na faculdade” – afirma. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas diariamente, Celina é mais do que uma senhora que anda de cadeira de rodas pelas ruas de Mafra. São oito anos de luta contra a falta de acessibilidade, mas esse descaso com os cadeirantes não deixa essa mulher de 72 anos presa dentro de casa. A única limitação que existe na vida de Celina Hirt é física.

Projeto de acessibilidade será apresentado à comunidade e para a Prefeitura de Mafra

O projeto “Acessibilidade: Direitos Fundamentais, Cidadania e Inclusão Social”, realizado pelos acadêmicos de direito da UnC, Taís Araújo Pinto e Bruno Neumann, e da fisioterapeuta Ângela Mella, com orientação do professor Clayton Gomes de Medeiros, tem como principal objetivo trazer para o conhecimento de todos os cidadãos quais são as leis federais, estaduais e municipais que garantem o direito a acessibilidade para todas as pessoas com deficiência.

O estudo foi direcionado a Celina Hirt com ênfase em sua dificuldade de locomoção e de todos os portadores de deficiência. Algumas das leis municipais de acessibilidade são para a circulação de ônibus com rampas hidráulicas, inclusões de brinquedos adaptados para deficientes em parques públicos e privados, ensino de libras em instituições públicas municipais, atendimento prioritário no comércio, entre outras leis que serão apresentadas para a Prefeitura – que fomentou o projeto – em breve.

Em Mafra, os parques centrais não são adaptados e apenas 60% do transporte públicos são apropriados, mas nem todos os ônibus têm a rampa hidráulica em pleno funcionamento. Também não é possível encontrar placas de atendimento prioritário em todos os departamentos públicos de Mafra, os quais deveriam dar exemplo de acessibilidade.

O projeto será apresentado junto a uma cartilha contendo todos os direitos e leis – para que os deficientes tomem conhecimento e possam usufruir de seus direitos – na próxima terça-feira (30) às 13h30min, no auditório da UnC de Mafra, no Bloco G. O evento é aberto ao público e a entrada é franca.

A reportagem da Gazeta de Riomafra dará continuidade ao caso, reportando especificamente também a questão em Rio Negro, bem como as dificuldades dos deficientes audiovisuais em Riomafra.