Obra contribui para o resgate da identidade sócio-cultural do homem do Planalto Norte Catarinense, suas origens, hábitos e costumes
Hoje acontece o lançamento do livro “O Legado da Cultura Tropeiraâ€, do professor Sandro César Moreira da Universidade do Contestado – UnC, a partir das 20h, no Hotel Susin. O livro é resultado de uma pesquisa realizada entre dezembro de 2009 a setembro de 2010 e tem como objetivo o levantamento dos vestÃgios e legados sócio-culturais do movimento tropeiro para a região cortada pelo caminho das tropas de Mafra a Papanduva. A pesquisa teve inÃcio por meio do Edital Elisabete Anderle de EstÃmulo à Cultura – um programa de seleção pública de projetos culturais da Secretaria de Estado Turismo, Cultura e Esporte, Fundação Catarinense de Cultura e Conselho Estadual de Cultura, destinado a estimular a produção, circulação, pesquisa, formação, preservação e difusão cultural de trabalhos artÃsticos de pessoas fÃsicas e jurÃdicas, com ou sem fins lucrativos, domiciliadas ou registradas em território catarinense.
No dia 19 de novembro acontecerá o pré-lançamento do livro na capela de Augusta Vitória, comunidade que abriga ainda hoje famÃlias dos tropeiros que passaram pela região.
Parcerias
A Prefeitura de Mafra, através da Secretaria Municipal da Cultura, Esporte e Turismo, apóia a iniciativa do autor no lançamento desta obra. Para a diretora de Cultura, Kátia Lansky, qualquer publicação que remeta à história de Mafra é de grande importância ao municÃpio. “Livros que retratam a formação da cultura e etnia do nosso povo são grandes fontes de pesquisa, tornando-se um material de referência histórica para o municÃpioâ€, ressaltou.
O livro contou também com o apoio de parceiros como a Fundação Catarinense de Cultura, Prefeituras Municipais de Itaiópolis e Papanduva, UnC, Secretaria de Estado de Turismo, Cultura e Esporte e Governo do Estado de Santa Catarina.
Referências
A coordenação do projeto tomou como referência o trabalho desenvolvido pela Uniplac em parceria com a UnC que levantou e demarcou em 2006 o caminho original, bem como os pontos de pouso da antiga Estrada da Mata no trecho que corta o Estado de Santa Catarina, do passo de Santa Vitória, no rio Pelotas ao passo do rio Negro, em Mafra.
A obra está dividida em quatro capÃtulos, sendo que no primeiro são abordados os elementos históricos constitutivos do significado da antiga estrada da mata para unidade territorial, polÃtica e econômica do Brasil, bem como, as caracterÃsticas sócio-culturais do homem que forjou a cultura social do planalto catarinense. No segundo capÃtulo estão apresentados os vestÃgios, pontos de pousos e localização da antiga estrada no recorte geográfico de Mafra a Papanduva com relatos de antigos moradores, há muito residentes no recorte do espaço-temporal estudado. No terceiro capÃtulo estão evidenciados além das denominações dadas pelos tropeiros aos vários rios, acidentes geográficos, que se mantém até os dias atuais, como por exemplo: Arroio do Passo, Morro do São Lourenço, Quebradente, Passo do Butiá, Sepultura, dentre tantos outros, as lendas e causos, a cozinha e selaria tropeira. E, no quarto e último capÃtulo, uma sÃntese do legado da cultura tropeira na região estudada.
Legado
O legado cultural dos tropeiros paulistas está evidenciado na região de Mafra, Itaiópolis e Papanduva, na linguagem, nos hábitos e costumes destacados nas histórias de causos e lendas. “Embora a criação polÃtica dos municÃpios seja recente, Mafra com 93 anos, Papanduva com 56 anos e Itaiópolis com 92 anos, o inÃcio da passagem pela região de bandeirantes e posteriormente tropeiros, data da primeira metade do século XVIII. Isto há 275 anos, momento que tem inÃcio a história da formação sócio-cultural do homem do planalto catarinenseâ€, explica o professor Sandro.
Trabalho de pesquisa
Segundo Sandro Moreira, inicialmente foram feitas reuniões com as comunidades arroladas na delimitação do projeto para analisar e realimentar os encaminhamentos metodológicos, grupos de trabalho com membros da comunidade e acadêmicos dos Cursos de História, Pedagogia e Sistema de Informação da UnC – Mafra. Em seguida foi feito treinamento do grupo em pesquisa e preservação do patrimônio histórico social e natural. No decorrer do processo se fez a identificação da imaterialidade cultural e do levantamento através de pesquisa oral, com memorialistas da região e entrevistas com os habitantes residentes ao longo do antigo caminho. “O resultado buscado não é outro que não contribuir para o resgate da identidade sócio-cultural do homem do Planalto Norte Catarinense, suas origens, hábitos e costumes, particularmente a razão de seu modo de serâ€, conclui Sandro.
Confira trecho do livro:
Estela da Costa Ribeiro, ao se referir a mula sem cabeça, conta uma passagem inusitada que seu pai teria vivido: “Ele estava andando de mula à meia-noite, e lá em certa altura, vinha vindo em sentido contrário à quela mula sem cabeça, parecia uma tocha de fogo, mas ela vinha que vinha, rinchando diz ,[…] quando viu aquilo, desapiou do cavalo, ao lado de uma lagoa e ficou ali, tirou o calçado, abaixou a cabeça,e diz que a mula vinha e se jogava com os pés contra ele, e voltava rinchando, e ele, ali rezando de cabeça baixa, de repente, lá vinha a mula de novo, chegava bem pertinho, e após uma hora sofrendo com a mula, ela veio mais uma vez e foi embora, e não mais voltou, meu pai contou que passou muito horrorâ€.
